SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE ALPALHÃO

Texto de juramento lido pelos Irmãos antes de ser efectuada a eleição

"Por estes Santos Evangelhos em que pomos as mãos juramos que bem e verdadeiramente conforme as nossas consciências elegeremos um Irmão para Provedor e outro para Escrivão e onze para Conselheiros para servirem este ano que vem a Deus e a Nossa Senhora nesta sua casa, e nesta eleição não teremos respeito a parentesco, amizade, nem ódio a alguma pessoa, se para servir forem aptos e suficientes para tais cargos e não descobriremos esta eleição a nenhuma pessoa, nem nos comunicaremos uns com os outros, salvo cada um com o seu companheiro, e assim mais elegeremos os Irmãos que devem entrar nos lugares vagos dos defuntos, ausentes ou banidos".

Recepção dos Irmãos na Irmandade

Depois de lido este Juramento, os Irmãos eleitores sentavam-se na mesa juntamente com os outros Irmãos, onde o Escrivão começava a ler as petições dos pretendentes e era com base nelas que se votava através de fauas (bilhetinhos brancos e pretos) e depois em dois vasos que serviam apenas para este acontecimento. Depois das votações feitas fazia-se a contagem dos votos, para que, os que tivessem mais votos fossem ocupar os lugares vagos consoante a sua condição. Caso houvesse igualdade de votos ficava aquele em quem o Provedor declarasse ter votado.

As eleições

No dia 2 de Julho, dia da Visitação de Nossa Senhora, frente ao altar de S. João Batista na Igreja da Misericórdia, reuniam-se todos os Irmãos para a eleição daqueles que iriam servir no ano em questão.

Nesse dia pela manhã o "Andante da Casa" ia pelas Ruas, Largos e Praças da Vila com a campainha e a Insígnia da Casa afim de chamar todos os Irmãos para que esses se reunissem na Igreja de modo a que se realizassem as eleições logo depois do meio-dia.

Depois de todos terem ocupado os seus lugares, o Capelão da casa lia em voz alta os capítulos relativos às eleições para que ninguém esquecesse as normas da Casa, logo de seguida o Provedor lia também em voz alta o Juramento dos Santos Evangelhos para que ficassem conscientes dos seus actos.

Toda a Irmandade sabia em quem podia votar, pois o Escrivão tinha o cuidado de fazer duas listas com os nomes dos Irmãos que já tivessem ocupado algum cargo nos últimos três anos, para que não fossem reeleitos, essas listas eram fixadas nas portas da Igreja da Misericórdia no dia de S. João Batista.

A divisão dos eleitores para a realização das pautas

Feita a eleição dos Irmãos pretendentes, o Escrivão fazia cinco escritos nos quais iam nomeados os nomes dos eleitos de Segunda condição que se colocavam debaixo da pedra do Altar-Mor, logo de seguida um dos Irmãos Nobres de joelhos retirava um dos escritos que se encontrava dobrado para não poder ser lido, o Irmão cujo nome viesse lá, seria o seu companheiro, assim ambos com papel e tinta eram levados pelo Capelão e um Irmão de Mesa para um lugar isolado de maneira a terem um ambiente sereno e calmo.

Castigos efectuados aos Irmãos

Quando algum Irmão fosse desobediente à Direcção da Irmandade, não cumprindo com as suas obrigações, ou vivesse escandalosamente, o Provedor e os Irmãos de Mesa podiam castigá-lo por três vezes, salvo se o caso fosse de maior gravidade, não havendo castigo possível a dar-lhe, podia ser banido da Irmandade, sendo o seu lugar ocupado por um outro Irmão. Na possibilidade de ser perdoado, só poderia voltar a ocupar o seu lugar depois de bem ponderado o caso pelo Provedor, Irmãos de Mesa e os dez Irmãos eleitores, existia ainda a possibilidade de nunca mais ser admitido na Irmandade.

Para situações de menor gravidade, como por exemplo, uma falta de comparência numa missa, numa festividade da Misericórdia ou até num enterro, aplicavam-se multas pecuniárias, como por exemplo em meados de 1809:

-Irmãos: 100 reis

Capelão e Escrivão: 120 reis

Provedor: 240 reis

Os enterros dos Irmãos e seus familiares diretos no início da Irmandade

Quando falecia algum Irmão desta Irmandade, dizia-se ao "Andante da Casa" (espécie de mordomo) que ia pelas Ruas, Largos e Praças da Vila com a Insígnia, Capa manual e Campainha da Casa para chamar o Provedor e todos os Irmãos da Irmandade.

Desta forma, todos os Irmãos eram obrigados a comparecer na Igreja da Santa Casa da Misericórdia com os seus Balandráos (opas usadas pelos membros das Irmandades e Confrarias das Misericórdias, espécie de roupão sem mangas, abotoado à frente e com aberturas para os braços), capelos pretos (capuz) e sírios. Depois de todos reunidos na capela, seguia-se, então o funeral do dito Irmão. Os Irmãos de Mesa levavam a tumba com uma vara na mão, o Irmão de visita ia diante da bandeira com a sua vara, um outro Irmão escolhido pelo Provedor ia com uma outra vara, regendo os outros Irmãos e verificando se todos rezavam catorze Pai Nossos e outras tantas Avé Marias pela alma do defunto. Era depois rezada uma missa com responso onde estaria presente toda a Irmandade e, no dia seguinte, faziam-lhe um ofício de três lições à custa da casa.

Desta forma, eram enterrados todos os Irmãos desde que deixassem esmola e as viúvas deles desde que não casassem uma segunda vez.

Porquê da existência de duas bandeiras e duas tumbas?

A Irmandade tinha duas bandeiras em que uma era para o enterro dos Irmãos e para as procissões, a outra era para os outros enterros.

A bandeira só saía acompanhada da campainha tocada pelo "Andante da Casa". Essa bandeira ia sempre nos enterros e nas Procissões diante de todas as cruzes.

As tumbas, uma era para os enterros dos Irmãos, suas mulheres e filhos e a outra era para os outros enterros.

Como eram organizadas as Procissões de Quinta-feira de Endoenças (celebração religiosa da Paixão de Cristo)

Ficou prescrito que a Procissão de Quinta-feira de Endoenças ficasse a cargo da Misericórdia.

Essa ia direito à Praça, depois à Rua Direita até à Igreja Matriz da Vila onde entrava para visitar o Senhor que estava exposto. Daí saía depois para a Rua de Santa Maria e descia a Rua do Arrabalde, subindo a Rua de São Pedro e visitando a Igreja do dito Santo, recolhendo, em seguida, para a Misericórdia.

Um dos irmãos levava a bandeira com dois brandóis que eram levados por outros dois Irmãos, diante da bandeira ia outro com uma vara para reger o bom alinhamento da Procissão.

À bandeira seguiam-se os homens por ordem, regidos por um Irmão com uma vara. Da bandeira até à primeira Insígnia tentavam levar candeias suficientes para que a Procissão fosse iluminada.

A primeira Insígnia era levada por um Irmão acompanhado por dois outros que levavam, cada um deles, seu brandói. Seguia-se outro Irmão com uma vara que ia sempre diante da Insígnia.

Da última Insígnia até ao Crucifixo iam os Irmãos com os seus balandráos vestidos e seus sírios na mão.

Diante do Crucifixo iam doze tocheiras (castiçal alto para tocha) levadas por Irmãos e iam os Clérigos e cantores, cantando o Salmo "Misere mei Deus". Atrás ia o Provedor com a sua vara na mão.

O Crucifixo era levado pelo Escrivão da Casa vestido com o seu balandráo e se possível de pés descalços, que ia debaixo do Pálio. Só se por alguma razão não podia cumprir com a sua obrigação, iria um outro Irmão, que por sua vez não podia ir debaixo do Pálio, pois para além do Escrivão só o Capelão da Casa podia ir.

Por trás do Crucifixo ia um Irmão com a Insígnia da imagem de Nossa Senhora da Saudade.

Os doze Irmãos de Mesa iam todos com as suas varas regendo a Procissão onde fosse necessário, conforme indicações do Provedor. Era-lhes encarregue as luzes e todas as outras coisas pertencentes à Procissão, como os doces e confeitos para os penitentes.

Era também entregue aos pobres, que cantavam as Ladainhas, uma vela a cada um.

Todos os ofícios tinham de levar Insígnias, tocheiras e varas, que eram repartidas em partes iguais pelos Irmãos nobres e plebeus, para que todos servissem a Deus com igualdade.

As funções a desempenhar na Procissão eram distribuídas Domingo de Ramos pelo Provedor e Irmãos de Mesa, e constava de um escrito com o cargo a desempenhar, que era entregue em mão aos destinatários.

O Tesoureiro tinha de ter tudo preparado para os curativos dos penitentes, era-lhe também encarregue a missão de ir buscá-los, levar fogareiros, novelos e lavatórios para que não faltasse na Procissão.

Quando o Santo Crucifixo entrava em alguma Igreja, o Capelão da Casa tinha de rezar a oração "Respire que sermus Domine" respondendo depois a multidão "Senhor Deus Misericórdia", levantando-se e prosseguindo com o Salmo ou a Ladainha.

Regimento do Hospital

A saúde da Alma é o principal remédio da saúde do corpo.

Cada quinze dias, um Irmão (Irmão de Visita) tinha a obrigação de ir ao Hospital e ver se havia algum enfermo. Existindo algum, dava recado ao Pároco da Vila para que o confessasse e para que recebesse os Sacramentos.